A NOVA TELA DO ALTAR DE SANT’ANA

Por: Cassio Pessoa Araújo e Sem. Rômulo Santiago, CRSP.

Em seu Livro, “Igreja da Sé” (1979), o saudoso Mons. Américo Leal discorreu sobre as telas assentadas por volta de 1779. Dentre as obras artísticas que compunham a “série primitiva” da Catedral de Belém, destacavam-se as antigas telas de Sant’Ana, de Santa Bárbara  e São Domingos; contudo, no decorrer dos séculos, estas belas obras sofreram notável desgaste, passando a ficar em péssimo estado de conservação. A nível de exemplo, a de Sant’Ana despencou por completo (ver fotos), exibindo o estado precário em que encontrava-se o quadro, no dia 17 de junho de 1989, fato este registrado em imagens e redações pelo Mons. Nelson Soares em sua coluna “Palavra de Padre”, do jornal “A Província do Pará”, publicado em 20 de junho de 1989. A partir desse acontecimento, o altar dedicado à Sant’Ana Mestra ficou 31 anos sem tela alguma.

A nova pintura de Sant’Ana – óleo sobre tela – é mimese de uma imagem devocional, venerada na Igreja de Sant’Ana, em Roma, onde situa-se a casa geral do Instituto das Filhas de Sant’Ana. O Artista Plástico Francisco Alves Ferreira, brasileiro, natural do Estado do Ceará, foi incumbido da tarefa de reproduzir a singular obra, a qual fora encomendada pelo Instituto das Irmãs Filhas de Sant’Ana de Belém.

Dada a feliz iniciativa e o desejo de reobter a tela de Sant’Ana para a Catedral de Belém, o então Cura da Sé, Cônego José Gonçalo Vieira, durante as comemorações dos 150 anos de fundação da Instituto das Irmãs Filhas de Sant’Ana, no ano de 2016, pedira ternamente à Ir. Antônia Leide Ferreira Macêdo, Superiora da Comunidade Religiosa em Belém, que, com grata satisfação, responsabilizou-se por providenciar a pintura da tela. Como consequência, foram feitos os contatos com a Provincial Ir. Ana Vânia Silva Lima, que concedeu a licença para a doação da singular tela. 

Em 2017, ao ocorrer a transferência do Côn. José Gonçalo, assumira como novo Cura da Sé o Côn. Roberto Emilio Cavalli Jr., o qual deu continuidade, com igual entusiasmo, o propósito de colocar novamente uma tela de Sant’Ana na Catedral Metropolitana de Belém, a qual também é padroeira da Região Episcopal em que a Igreja Sé está localizada.

No último dia 14 de dezembro de 2020, ocorreu a apresentação pública e bênção da nova tela de Santana. Presentes ao ato, estavam o Côn. Roberto Cavalli Jr., Cura da Sé e a Ir. Antônia Leide Ferreira Macêdo, Superiora da Comunidade Religiosa em Belém,que em nome das Irmãs Filhas de Sant’Ana realizou a entrega deste mais novo patrimônio artístico da Igreja da Sé. Algumas religiosas e vários paroquianos presenciaram também a cerimônia. Foi entoado solenemente o Hino de Sant’Ana, pelo organista Lucas Uchoa e seguido da assinatura da Ata de Apresentação da sobredita tela, findando-se, assim, um árduo trabalho de meia década.

Ademais, vale a menção ao fato de não tratar-se de uma reprodução ou restauro da antiga tela, porém de uma excepcional, cuja finalidade é proporcionar àqueles que imergem no interior da magnífica Igreja Sé de Belém venerar com devoção a Senhora Sant’Ana, mãe da mais bela de todas as mulheres. Em suma, agradar não somente aos olhos do espectador, mas elevar sua alma ao bom e ao verdadeiro, o Cristo Jesus, filho de Deus, que dessa raiz advém.

BREVE EXPLICAÇÃO DA ICONOGRAFIA DA TELA DE SANT’ANA

Por: Ir. Ana Maria Pezzino*

Sant’Ana se apresenta nesta pintura como atributo de Maria, isto é, em função de Maria. Santa, de fato, à sua direita. Veste uma túnica verde, um manto amarelo e um véu branco, as cores com as quais é habitualmente representada na arte. O vermelho, é símbolo do divino, da realeza, mas exprime também amor, fogo, martírio, consagração… O azul simboliza o terrestre, o humano. (Jesus, de fato, é representado muitas vezes com uma túnica de cor purpúrea e um manto azul para significar a divindade em conjunto com a humanidade por Ele assumida). O branco exprime pureza, inocência, integridade. O ouro, que muitas vezes funciona como fundo dos ícones orientais, indica o esplendor do Paraíso, a luz da glória divina na qual os santos vivem. 

Quanto ao verde e ao amarelo que compõem o habito de Sant’Ana, o primeiro é a tinta da vegetação e do despertar da natureza a primavera; símbolo, portanto de fertilidade de esperança… e também de amor que se traduz em obras de beneficência. O amarelo está a indicar a divina sabedoria, a vida eterna… mas pode exprimir envelhecimento e declínio. Disto deriva provavelmente a idéia que em Sant’Ana as duas cores do hábito aludem respectivamente ao amarelo do manto à idade avançada e a esterilidade; o verde da túnica à prodigiosa fecundidade, sobrevinda por extraordinário intervento divino numa situação humanamente impossível. O véu branco faria referimento à sua retidão e a fidelidade a Deus.

A iconografia representada pertence à categoria daquelas ditas imagens de devoções, bem distintas das outras ditas de culto.

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*FONTE: VIRGA JESSE – Revista das Filhas de Sant’Ana, Ano XIV, nº 1, janeiro a março de 1999, p. 29-33.

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